Kung Fu Kid

Crítica do filme Karate Kid, de Harald Zwart [EUA / China, 1990]

Urgência. Foi a palavra que me surgiu como nuvem escura e constante durante essa última semana, depois de uma sessão bem particular do filme Karatê Kid [The Karate Kid, EUA / CHI, 2010], dirigido pelo norueguês Harald Zwart. Recentemente tive acesso à uma cópia pirata em DVD da película e notei que a dublagem do filme foi captada diretamente do cinema e a imagem provavelmente baixada pela Internet.

O remake do homônimo clássico-de-sessão-da-tarde adolescente dos anos 1980 [que gerou mais três seqüências], mal estreou nos cinemas e a cópia em DVD já está disponível em qualquer barraquinha da cidade. Nada contra a pirataria, mas assisti ao filme com certa dificuldade, tentei baixar uma legenda, mas não deu muito certo, pois o subtítulo original ora aparecia, ora sumia. Embora tenha detestado essas condições compreendi bem o filme, o que não foi difícil, mesmo para quem não conhece [?] a história.

Já que coloquei a interrogação: o Karatê Kid é um jovem com dificuldade de se adaptar a um novo endereço, apaixona-se por uma garota gentil que, por sua vez, é a razão do ciúme do valentão da escola. Cansado de apanhar de seus coleguinhas, o garoto conhece um senhor humilde e com ele começa as aulas de… Kung Fu! Essa talvez seja a maior das diferenças entre as duas versões da trama. Na mais recente o protagonista Dre [Jaden Smith] é um menino negro de 12 anos que vai para a China acompanhando a mudança de emprego da mãe. O antigo Daniel Larusso, vivido por Ralph Macchio, era branco e alguns anos mais velho.

Fazendo jus ao enredo original, o filme de 2010 chega com nova roupagem afirmando assim uma certa personalidade, bem marcada, até mesmo na brincadeira com a primeira versão, na qual o Mr. Han [Jackie Chan], imita o gesto de tentar capturar uma mosca com o par de rashis [aqueles pauzinhos que os orientais usam como talheres]. No momento que o espectador espera pela paciente agilidade do Sr. Miyagi [Pat Morita, descanse em paz], o personagem de Chan, simplesmente usa um mata-moscas pra acertar o inseto. Talvez seja um indicativo no próprio filme dessa urgência dos dias de hoje que tem mudado bastante a dinâmica do acesso à cultura, a cinematográfica em particular.

A urgência está no fato de que essa nova versão naturalmente gera uma procura pelo resultado em relação à versão original, além de representar a atual tendência às refilmagens e adaptações de livros, quadrinhos, etc; apostas “certas” em um cenário onde o acesso às grandes produções é “facilitado” pelas diversas formas de distribuição oficial e não oficial do audiovisual.

O avanço da pirataria como mercado concorrente e a disponibilidade de downloads de filmes mesmo antes da estréia nas salas de cinema acaba por levar aos grandes produtores de Hollywood a apostar em remakes e adaptações, ao invés de arriscar produções originais. Resultam disso produções cada vez mais caras, destinadas a atingir um público-alvo [adoro esse termo] certo: no nosso caso, a juventude que acompanhou via TV a comovente história de superação de obstáculos pessoais e sociais; além da nova geração, que se reflete até mesmo na idade do protagonista e em referências à músicos do universo pop atual.

É interessante também notar a tentativa de política de boa vizinhança com a China, que desponta como nova potência mundial. Com seu capitalismo de Estado, o país oriental figura como um bom mercado de bilheteria, embora a distribuição em DVD seja dominada por produtos pirata, que chegam a 90% do total de vendas. Kung Fu Dream, como é chamado por lá [na tradução em inglês] propõe assim a reapropriação de um sucesso antigo, que acaba por se tornar um importante negócio tanto na esfera política como na econômica. A mãe do garoto Dre em dado momento do filme: “– tá vendo? De antigo a China não tem nada…”.  Diz tudo.

Como entretenimento, Karatê Kid 2010, vale a pena. Isso para quem espera dele certa fidelidade ao antigo enredo lacrimoso e também para quem quer ver um filme divertido, que sugere personalidade própria, sem grandes questionamentos de ordem mais analítica. A trama se sustenta nos 140 minutos pelos quais se estende, aliás o que me fez ficar assistindo por tanto tempo, mesmo com um áudio ruim. Imagino quantas pessoas não viram aquela capa tosca – que faço questão de adicionar aqui – e tão logo compraram.

E antes que aquela nuvem escura se transforme em tempestade: Assim como acontece com o mundo da música é bem provável que o acesso e a apropriação da técnica e linguagem cinematográficas traga novas possibilidades criativas, o que já acontece no próprio cinema independente dos EUA. O combate à pirataria é inútil, uma vez que qualquer pessoa com internet razoável pode  baixar um filme. Acredito que essa dinâmica de rapidez de disponibilidade dos produtos culturais é o que gera uma necessidade cada vez maior de consumo e deixará o modelo de mercado padrão obsoleto. Os grandes produtores terão de repensar suas alternativas se quiserem manter seus números, urgentemente. Com a urgência de nosso tempo.

P.S.: a cópia pela qual vi o Kung Fu Kid foi levada de volta e trocada pelo filme nacional Nosso Lar, gravado diretamente dos cinemas…

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