¿TÚ ERES TU DESTINO?

Crítica do filme Caídos do Céu, de Francisco J. Lombardi [Peru / Espanha, 1990]

Verônica - à beira do precipício ouvindo Don Ventura

¿Tú eres tu destino? Ainda que sejamos tão próximos em diversos aspectos – geográficos ou históricos, políticos ou econômicos – as distâncias culturais entre o Brasil e os demais países da América Latina parecem ser de uma imensidão colossal. Mesmo com o Oceano Atlântico no meio do caminho, ainda estamos mais perto das fronteiras européias e norte-americanas, em termos de referências artísticas, esportivas e até mesmo linguísticas, do que um possível fluxo com nações como Bolívia, Venezuela ou Peru, país sobre o qual falaremos através do filme que motivou essas breves linhas.

No final da década de 1980, a nação peruana sofria com um colapso em diversas esferas causado pelas reformas econômicas da década anterior. É sobre esse contexto que Francisco J. Lombardi, diretor de Caídos do Céu [Caídos Del Cielo, 1990] lança sua abordagem. A co-produção Peru / Espanha é um belo e triste retrato sobre a situação de caos social gerada pelas políticas então adotadas. Na película, o diretor demonstra habilidade ao balancear nuances de humor, melodrama – inicialmente – e fina ironia que converge para a situação trágica, tratada com uma acidez crítica e desesperança, que lembra o Buñuel de Los Olvidados [México, 1950], além de algumas das obras neo-realistas.

O ponto mais forte do filme está no roteiro. Baseado no conto de Julio Ramón Ribeyro, a narrativa audiovisual foi escrita por Augusto Cabada e Giovanna Pollarolo [então esposa de Lombardi]. No filme, três gerações de peruanos são diretamente afetadas pela situação de decadência moral, econômica e social. Um casal de idosos, Lizandro e Cucha, veem na construção do próprio mausoléu a única possibilidade de triunfo de uma família antes abastada, que perde tudo inclusive seu herdeiro. Humberto Sánchez / Don Ventura, 50 anos, locutor de rádio de classe média, se vê na difícil missão de levar esperança a uma mulher sem nome, a quem chama Verônica, mesmo descrente de suas próprias palavras. Já os garotos César e Tomás [ótimos atores por sinal], que moram numa favela, sofrem com a violência imposta pela avó deles, que é cega física e espiritualmente. Esta idosa os faz catar comida no lixão para um porco, enquanto esses mesmos jovens adoecem de fome.

Numa montagem paralela, bastante precisa e bem ritmada, suas histórias são relacionadas, gerando uma unidade na qual os problemas são apenas passados de mão. Lombardi parece antecipar os acontecimentos do governo Fujimori, ao incluir um personagem nipo-peruano, que passa o porco para os idosos, que, por sua vez, repassam o problema para as crianças do lixão, como um pacote econômico… Não é de todo errado comparações à era Collor, na qual nosso país também passou por maus bocados. Tanto o brasileiro quanto o presidente peruano, saíram do poder à força, por insatisfação popular e, principalmente, dos setores comandantes do país.

Embora tanta semelhança com a condição social de nosso país, mesmo em tempos de Internet e comunicação relativamente facilitada, ainda é difícil encontrar material, ou mesmo referências das cinematografias do lado oeste da fronteira. La Teta Asustada [Peru / Espanha, 2009], de Claudia Llosa, chegou por aqui com um certo sucesso, mas ainda é muito pouco, se tomarmos em conta o volume de filmes que chegam do hemisfério norte. Precisamos conhecer o que se faz bem aqui do lado e vice-versa, afinal não podemos ficar para sempre de costas a nós mesmos, inclusive no que se refere à produção e distribuição cinematográfica. Enfim, e bem menos pessimista, trazemos um pouco do Don Ventura: por enquanto ainda não somos nosso próprio destino.

Um comentário sobre “¿TÚ ERES TU DESTINO?

  1. Olá! Estou há tempos procurando informações sobre o filme peruano “Caídos do Céu”, dirigido por Francisco Lombardi. Eu assiti ao filme há muito tempo e meu desejo é poder revê-lo. Vivo procurando na net como compra´-lo. Se vc souber como conseguir essa excelente obra de arte entre em contato comigo, por favor!
    Quanto á sua crítica sobre o filme, parabéns! Realmente esse filme foi um dos mais marcantes em minha vida, haja visto tamanha sensibilidade por parte dos atores, direção e equipe técnica.
    Abraço e ate mais!

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